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A infância por escrito

Martha Medeiros

Era um concurso e eu recebi 500 poemas de crianças. Li e descobri que os brasileirinhos têm duas ideias fixas: a paz no mundo e a dor de amor.

Certa vez fui jurada de um concurso de poesia infantil envolvendo alunos de escolas públicas de todo o país. Cada jurado recebeu cerca de 500 poemas para ler. As crianças, em sua maioria, tinham 10 anos de idade. Cada jurado deveria selecionar alguns poemas finalistas e depois um outro júri elegeria, entre estes, os três vencedores. Pausa para um longo suspiro. Fiquei exausta só de lembrar.

Todo final de tarde eu mergulhava naquela papelada. Os poemas vinham escritos em folhas de caderno, à mão. 500 poemas, sabe o que é isso? Lia algumas dezenas por dia. E descobri que as crianças do Brasil têm duas ideias fixas – a paz no mundo e a dor de amor.

Metade dos pirralhos criou versos exaltando a solidariedade, a bandeira branca, as pombas no céu. Abaixo a guerra / vamos dar as mãos / paz na terra / somos todos irmãos. Choveu poema assim.

A outra metade preferiu rimar amor e dor. Uma dor dilacerante, diga-se. Rancores para sempre, amores inesquecíveis, lágrimas de sangue, tentativas de suicídio, vinganças, desesperanças, más lembranças. Aproveitando a rima: e eram apenas crianças!!

Aos 10 anos de idade, pouquíssimos daqueles poetas mirins rimariam escola com Coca-Cola, brinquedo com segredo, verão com diversão, sol com futebol. Ficou claro: poesia, para eles, ou era engajamento ou lamento.

Sem vivência suficiente, de onde eles tiraram esses temas? Possivelmente muitas das crianças reproduzem em versos o que estavam acostumadas a assistir na tevê: prédio atingidos por aviões, conflitos armados, acidentes de trânsito. Ou então reproduziram a avalanche de corações despedaçados que sustenta a audiência de filmes e novelas.

Elas podem ter sido tocadas também pelo que acontece dentro de suas casas. Famílias chegadas num tabefe não é coisa rara – e mulheres trancadas no quarto a chorar por homens que se foram, também não.

Seja qual tenha sido a fonte, a verdade é que a inspiração se deu. Elas colocaram no papel o que poetas maduros também fazem, apenas com mais vocabulário: usar palavras para conscientizar, denunciar, registrar uma época – ou então para revirar alma e coração, buscar a razão dos sentimentos, transformar em verso nossa incompreensão de tudo e de nós mesmos, e tentar sofrer com alguma elegância e presença de espirito. No final das contas, poesia é quase sempre isso aí mesmo: engajamento ou lamento.


Aproveito para parabenizar o Alexandre Brito e o Ricardo Silvestrin pela criação da editora Ame o Poema, que se dedicará exclusivamente a publicar poemas, inéditos ou veteranos, desde que bons. Lançou de cara 14 livros nesta Feira. Numa época em que a poesia quase não tem mais espaço, viva esta ousadia e vida longa à editora.


Domingo, 14 de novembro de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.